À flor da pele
Postado em 06-05-2013
Gostaria de começar esclarecendo que o artigo escrito por mim Homossexualidade: peso da diferença, publicado no domingo dia 7/4, não saiu com o texto original. O que foi anexado era de um artigo passado, que tinha como título Contingência do desejo. Solicitei que fosse feita a correção, justificando que o erro foi do jornal e publicando o artigo original por mim enviado, o que foi feito na segunda-feira seguinte. Quem não teve a oportunidade de ler o texto correto pode vê-lo na internet. Aproveito o momento para enviar, em meu nome e do jornal, nosso pedido de desculpas pelo ocorrido.
O fato me fez pensar sobre nossos erros e como nos sentimos diante dos erros dos outros, até que ponto sobre tolerantes e usamos o velho ditado “Ter razão ou ser feliz”. Para Amparo Caridade, a história dessas relações tem sua base na construção pessoal de cada indivíduo. Ela se inicia na família. É lá que se torna a confiança básica, o núcleo de segurança pessoal que possibilita uma identidade. A partir dela, da certeza do que somos, torna-se possível conviver com os outros. Nosso destino inevitável é ir em direção aos outros, mas sem perceber quem somos.
Cada um de nós tem o dever de empenhar-se na melhoria de si, da própria vida e da vida em seu redor, do mundo que se faz em seus dias, do outro com quem vive, da cultura que se constrói a partir do que se planta. Se cumpríssemos esse dever, já teríamos um grande resultado na convivência humana. Contudo, uma transformação maior exige mais de nós. Essa só será viável quando nos juntarmos, e não mais tivermos vergonha de querer bem ao outro. Por que tanto medo de peamor e perdão? Ser rejeitado, criticado, ignorado ou simplesmente amado, desejado e admirado. Vou pela segunda opção, mesmo que a resposta seja não, já houve um sim de uma parte, e isso é equilíbrio.
“O inferno são os outros” dizia Sartre, mas o inferno pode ser também sua ausência, a falta de desafios que ele provoca, a impossibilidade de crescimento e enriquecimento pessoal quando ele nos falta. Pode ser também nossa ilusão de uma liberdade irrestrita, de uma insuficiência tola que nos faz prescindas parcerias da vida. Pode ser os arranhões que fazemos aos relacionamentos, o sentimento sem expressão, a cortina de ferro entre os corações. O espetáculo do mundo nos distrai, sobretudo, de atentarmos para a importância que o outro tem em nossa existência.
Na contraface disso tudo, sinto uma nova preocupação masculina por essas questões em nosso consultório, onde os homens estão tentando desenvolver sua capacidade de amar, de serem ternos, amigos e partilhadores. Entendendo que isso em nada pode ameaçar sua masculinidade. Pelo contrário, isso faz deles espécimes raros, que podem reunir força, coragem, beleza e expansividade do ser. A sociedade muito se beneficiará, com novos modelos de convivência, se houver o resgate do humano, do sensível nos homens. Outro dia um paciente cantarolou com muita emoção a canção do Zeca Balero, “Ando tão à flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar”... e choramos juntos!
Zenilce Vieira Bruno
zenilcebruno@uol.com.br
Psicóloga, sexóloga e pedagoga
Fonte: Jornal O Povo - 05/05/2013
Homossexualidade: o peso da diferença
Postado em 08-04-2013
Fui convidada a proferir uma palestra no Congresso de Geriatria sobre as relações homoafetivas na terceira idade. Quando comecei a prepará-la pensei, será que sabemos o que é a homossexualidade? Pois em pleno século XXI, percebo que a mesma ainda tem sido vista, especialmente entre leigos, como um estigma, para alguns uma doença ou, o pior, uma demonstração de sem vergonhice propositadamente cometida. O aspecto mais básico do problema é o educacional, pois a sexualidade ainda é passada como algo sujo, ruim e vergonhoso, especialmente no que diz respeito às suas manifestações entre as minorias sexuais. Claro que se passarmos a uma criança a ideia de ser o homoerotismo uma distorção, será muito difícil que mais tarde ela possa vir a ter uma visão menos preconceituosa a respeito.
Crescer é basicamente uma questão de moldagem, de ajuste a uma sociedade. É um processo vital, pois nenhum de nós poderia sobreviver por muito tempo sem ser membro de algum grupamento social. Se os estereótipos culturais dessa sociedade forem demasiadamente rígidos, eles impedem o crescimento dos seus membros, instalando-se a estagnação. Observa-se que tal rigidez pode mutilar a mente dos indivíduos de forma tão grave e permanente, como o costume do atar os pés mutilava antigas gerações de mulheres chinesas. No entanto, se os estereótipos forem amorfos demais, a sociedade fracassa em prover seus membros dos meios necessários para a cooperação, e em pouco tempo se desintegra. A tendência dos estereótipos culturais em resistir à mudança é essencial para a manutenção da sociedade, mas a flexibilidade é fundamental para a saúde, tanto da sociedade quanto de seus membros, segundo Money.
É essa flexibilidade que oferece a oportunidade de se atingir o “ponto-chave” de compreensão e postura diante de novos conceitos e acontecimentos. A questão da escolha afetiva é determinada e aceita socialmente, a partir da heterossexualidade. A mulher deve escolher o homem, o homem deve escolher a mulher, e essa escolha deve dar prazer, ser satisfatória e coerente. E é justamente aí que reside à incoerência, pois a escolha de parceria afetiva é individual e pessoal. Neste sentido, a homossexualidade se caracteriza pela parceria afetiva com o mesmo sexo, isto é, escolha de objeto amoroso e não de vida. A confusão entre escolha de objeto amoroso e escolha de vida, fica evidenciada no atendimento de pacientes cujo sofrimento emocional advém da dificuldade em conciliar a sua orientação sexual com o contexto social. A resolução quanto à própria sexualidade reside no fato de perceber-se capaz de seduzir, ser seduzido, e, principalmente, poder discriminar nessas situações com quem se deseja um envolvimento maior pelo nível de satisfação e prazer que essa escolha amorosa possa proporcionar. Sob esta ótica, a homossexualidade pode ser considerada uma variante normal do comportamento sexual.
Epíteto (século I d.C.) afirma: “Não são as coisas em si que nos perturbam e sim a opinião que temos delas”. Neste caso, o profissional que categoriza, classifica ou rotula por dificuldade de lidar com a diferença, não passa de reprodutor de ideologias preconceituosas. As diferenças são inerentes à condição humana. A organização social que determina essas diferenças em categorias valorativas visa, de certa forma, encontrar justificativas para tornar mais próximos os “desiguais”. Sobre os aspectos apontados resta pensar se, ante a perspectiva de se criar um padrão que defina o porquê de uma determinada escolha de objeto amoroso, não estaríamos perdendo de vista características que fazem parte da “natureza humana”? E, neste sentido, não estaríamos também sendo condescendentes com certos abusos emocionais cometidos em nome da heterossexualidade? Somos ao mesmo tempo semelhantes e diferentes de todos os demais, em nossa indivisibilidade. Somos, em cada momento, únicos e universais. Transformar uma sociedade é nos transformarmos. E transformar, também, a sociedade que está dentro de nós.
Zenilce Vieira Bruno
zenilcebruno@uol.com.br
Psicóloga, sexóloga e pedagoga
Fonte: jornal O Povo (08/04/2013)
Contingência do desejo
Postado em 11-03-2013
É paradoxal a ideia de escrever sobre o desejo, porque dele é dito que é algo sobre o qual não se sabe. Melhor dizendo, não sabemos o que desejamos. Mesmo assim, são muitas as falas sobre o tema e não se esgotam as peripécias linguísticas para esboçar essa face humana. Escrevemos e falamos sobre algo obscuro, sobre essa força intensa que move o espírito humano. A ânsia de escrever sobre isso corresponde à vontade de escrutinar em nós próprios os caminhos do que ainda não alcançamos, não experienciamos, numa fome de saber e sentir o que se esconde mais além do ponto até então conhecido, vivido, experimentado. Falamos da contingência do desejo. E é desse desejo que surgimos. Não somos filhos do necessário, mas do desejo.
Sob o signo do maravilhamento, nós enxergamos belos, grandes, fantásticos mesmo. Escutamos o discurso das estrelas, fazemos o gesto cósmico de apanhar a lua para oferecê-la ao ser amado como quem oferta algo muito além de si mesmo. Envelhecemos quando não somos mais capazes desses gestos, razão porque alguns adultos irritam-se com a mente enluarada dos adolescentes. Ante o universo enlouquecido de emoções desencadeadas, quando duas pessoas se buscam, se atraem, se tocam, se gostam, somos tentados a exercer controles. Interrogamo-nos quais os limites do permitido e do proibido nesse avanço de toques e descobertas inevitáveis. É preciso não impeos gestos espontâneos do desenvolvimento, porque o importante não é tanto o que fazemos à pessoa, mas o que não lhe retiramos. O acerto em nós estará nessa capacidade de acompanhar o fenômeno da vida e evitar interferências desnecessárias.
Realizar o desejo implica tornar realidade aquilo que está na fantasia. Mas o fantástico é sempre muito maior que a realidade. O que o desejo humano deseja é possuir o desejo do outro, é ser desejado ou amado pelo outro, é ser reconhecido em seu valor humano. Por isso, quando se perde um amor, o que se perde mesmo é o desejo do outro por nós. Por isso também é tão intensa a ferida narcísica que a perda provoca. Desejamos porque não nos bastamos, porque uma agonia íntima de ser só quer alívio. Acuados, buscamos esse outro, um sujeito que também não se contém em sua inquietação desejante. É interminável o universo de reflexões que se pode tecer acerca do desejo, como intermináveis são suas expressões, como ilimitados são os objetos que tentam satisfazê-lo, como infinita é a ânsia do outro que ele provoca.
Fascina-me transpor o real para tentar encontrar dimensões mais reveladoras do humano. Talvez seja pouco útil meu discurso para quem busque apenas aplicações de ordem prática. Mas penso como Bachelar: “O homem é uma criação do desejo, não uma criação do necessário”. Gosto da emoção de cascavilhar a coisa simples, complexa e fantástica que é a descoberta do sexo e do amor como alquimia, algo misturado à vida, magia da sensação que dormita a nossa pele, no aguardo do nosso próprio acordar sensório-existencial. Fascina-me dizer que a sexualidade que se ensaia no adolescente, ou esta que vivemos como adulto, será plena, e plena em sua metáfora suprema: a sedução do outro, o encontro com seu mistério, sem jamais desvendá-lo.
Zenilce Vieira Bruno
zenilcebruno@uol.com.br
Psicóloga, sexóloga e pedagoga
Que mulher é essa?
Postado em 14-02-2013
Nas últimas semanas o tráfico de mulheres tem sido alvo de debate, provavelmente por ser tema de uma novela que se encontra no ar. Para alguns parece ser algo distante, para outros, mera ficção. O tema é tão hediondo que faltam palavras para expressar a indignação que o tipo de crime suscita. Uma sensação de mal-estar interior cresce ao longo da leitura dessas reportagens. É uma indignação visceral, um sentimento de desamparo no sentido real do termo, abandono ao mal, violência sem qualificação a que a sociedade assiste inquieta e temerosa.
Ciente da responsabilidade do meu papel de formadora de opinião, pretendo alertar que corpos femininos estão se tornando coisas, mercadorias, objetos banais. Negócio lucrativo como outro qualquer. Será essa uma questão nova na bandidagem internacional? Sabemos que a questão é antiga e que continuamos simplesmente assistindo ao horror infligido pelos criminosos. Estes e outros crimes fazem-me pensar o quanto a humanidade tem perdido em sensibilidade, respeito e dignidade.
É a grande miséria econômica que torna essas mulheres vulneráveis ao “canto da sereia” convocando para “trabalhos no Exterior”, não imaginando a escravidão que lhes espera. É a carência ou a ganância que convoca corpos a se venderem para a soberania do capital, invertendo a importância que o ser humano deve a si mesmo.
A banalização da vida e da pessoa conduz a esse tipo de indústria, fundada na imoralidade e na impunidade. É lucro hediondo sobre o sonho dessas mulheres de conquistarem uma vida melhor. É lucro hediondo sobre o uso e abuso dos corpos, como se fossem corpos sem face, sem nome, sem identidade, sem pátria.
Vendem-se corpos também na TV, no cinema, nos outdoors, nas esquinas da vida. A profissão de modelo, na qual garotas submetem-se a uma modelagem padronizada e tirânica de seus corpos, não é também uma forma de escravidão feminina? Até quando muitas das mulheres ainda serão simplesmente descritas como bonitas, feias, gostosas, gordas, magras, sedutoras, frias, fáceis, difíceis, velhas, jovens, enfim, de um modo estereotipado, discriminativo, preconceituoso, injusto e degradante de nomear a mulher, como se a atribuição cabível fosse de que ela é um objeto sexual, um ser de uso doméstico destituída de valores como pessoa?
Que seja dito que somos pessoas corajosas, lutadoras, amáveis, ativas, empreendedoras, cultas, capazes, sensíveis ou não, mas que sejam encontradas outras formas de dizer sobre a mulher que somos. Crescemos, saímos do lugar das sombras que fomos mantidas por tanto tempo.
Que a dor não seja só feminina e o prazer não seja só masculino. Nosso apelo para o ano que iniciou é que ele seja mais humanizado por ações mais éticas, com justiça e solidariedade em relação a essas questões e muitas outras. E principalmente, que nós mulheres valorizemos o nosso corpo, nossa dignidade e nossa alma. Não podemos mais ir para um mercado em que nos colocamos como algo a ser desejado e adquirido. Temos muitos valores e bem mais reais do que apenas um corpo bonito!
Zenilce Vieira Bruno
zenilcebruno@uol.com.br
Psicóloga, sexóloga e pedagoga
Adolescência hoje
Postado em 17-12-2012
Acompanhei a campanha eleitoral e fiquei surpresa com tantos interessados em defender os adolescentes. Empolgada com as promessas, escrevo para colaborar e quem sabe esclarecer alguns devaneios.
É imprescindível que antes de elaborar qualquer projeto se conheça quem é e do que necessita o adolescente. A adolescência se impõe pelo seu contingente significativo, pelas suas expressões peculiares (e muitas vezes dramáticas de conduta) e pela sua influência no mercado de consumo. Esses aspectos e outros, que vêm sendo pesquisados, têm permitido a sua inscrição no arcabouço teórico do desenvolvimento, e, inclusive, na criação de um novo olhar profissional para o adolescente.
A literatura etnológica tem revelado que em muitas culturas existem ritos de iniciação com definição explícita de um estatuto que tem por fim converter o jovem em adulto socializado e bem adaptado à sua sociedade. Esses ritos contêm uma simbologia de alcance social, pois, ao promover a integração dos jovens às regras sociais e políticas de sua cultura, asseguram seu reconhecimento como cidadão pelos outros membros da sociedade.
Essas observações contrastam com o que se vê na sociedade ocidental, onde a passagem à idade adulta não está institucionalizada. Os poucos ritos existentes implicam em aspectos parciais do indivíduo, prescrevendo que a transição entre infância e idade adulta se mantém em aberto. Os adolescentes têm grande dificuldade em conquistar o seu estatuto social e exercer a cidadania, pois carregam o peso dos próprios conflitos e das instabilidades da sociedade contemporânea, que tem produzido, na forma de iatrogenia, uma assincronia acentuada entre as idades de maturidade biológica, psicológica e social.
As estatísticas de mortalidade apontam que eles estão morrendo em progressão crescente por eventos violentos. A ciência e a tecnologia muito realizaram, mas não têm contemplado este grupo de forma preservadora. Por exemplo, as leis prescrevem velocidades menores nas rodovias e ruas das cidades e a tecnologia joga no mercado carros cada vez mais potentes e velozes. Os meios de comunicação acenam a prioridade para um mundo virtual inalcançável, e os adolescentes, vítimas do imaginário, buscam as alucinações da ilusão, perdendo a referência da realidade. Seriam estes óbitos por violência os resultados funestos dos rituais de passagem que a sociedade contemporânea tem dado como provas de iniciação aos jovens?
Sem limites etários definidos, sem adultos de referência, sem lugar, sem tempo, a adolescência de hoje anda às soltas, construindo uma cultura marginal. Nos parques e shoppings, com skates, dialeto próprio, roupagem, enfeites e aparência típica, eles vivem à parte. Vistos muitas vezes como ameaças sociais, são enfrentados pela força policial.
Resistindo a pressões escolares, são punidos com avaliações tendenciosas e reprovações. Para os sobreviventes bem nascidos e dotados, resta o vestibular que penaliza, humilha e adia a realização intelectual e pessoal. É a violência sutil fantasiada de boas intenções. Sem tempo e sem espaço, o adolescente continua nômade do imaginário, sem direito de ser iniciado na realidade.
Zenilce Vieira Bruno
zenilcebruno@uol.com.br
Psicóloga, sexóloga e pedagoga
Essa tal solidão
Postado em 19-11-2012
Em plena explosão das redes sociais e das facilidades dos contatos físicos, emocionais e sociais, o que mais escuto é o lamento de que seu mal é a solidão. Que ficar só dói, fere, humilha, incomoda, abate a autoestima. Afinal ter alguém com quem partilhar a vida é, inegavelmente, muito bom. Só que, existem algumas parcerias em que se fica verdadeiramente solitário, sem trocas, sem comunhão, e onde se instala uma “solidão a dois”. Há parceiros que apenas emprestam seus corpos a um gozo tão econômico de afeto, que nem deixa saudades para um próximo contato. Há ainda outros pares que se maltratam, desrespeitam-se, e até se destroem. Pouco se lembra de que é possível partilhar algo de si, da vida, de modo muito agradável, simplesmente com uma pessoa amiga. É preciso desfazer o mito de que a solidão só se quebra tendo uma parceria dita “amorosa”.
Na verdade o sentimento de solidão fica intolerável quando o outro não nos alcança, não quer, não pode nos ouvir, ou não entende o que queremos dizer, seja de dor ou de alegria. Ou quando nós mesmos não sabemos fazer isso, não sabemos nos escutar, acolher-nos, considerar-nos. Somos uma cultura sem esse exercício de partilha e escuta.
Estudos atuais vem ressignificando à solidão, ao apontar as dimensões positivas que a experiência pode guardar. Não se trata necessariamente de uma situação desesperada e sofrida. “A solidão não é um tempo de abandono”, diz Phillis Hobe, “É, ou pode ser um tempo de ser ou tornar-se”. Pode ser, portanto, um lugar de confronto e de conforto, de diagnóstico e de cura. Os nossos acontecimentos interiores merecem todo o nosso afeto. Neste sentido também, a solidão torna-se uma aventura e até serve para nos lembrar de nosso destino relacional, nossa vontade de buscar o outro. Isso é diferente do isolamento em que nos colocamos, às vezes, de modo ofensivo.
Para Amparo Caridade, a solidão negativa é a marca do divórcio entre o indivíduo e sua própria existência. Enquanto expressão de insuficiência, ela emerge em meio às frustrações por falta de satisfação nos diversos campos da vida privada e coletiva. A capacidade de o indivíduo ficar só é um dos maiores sinais de amadurecimento emocional. Ter a capacidade de estar sozinho, refletir e deliberar sozinho, é inevitável e necessário para nos mantermos como seres singulares, como sujeitos morais, e em última instância como sujeitos políticos.
Solidão faz mal? Não. Se dela fizermos o caminho de crescimento e singularidade pessoal. Se for vista como condição humana, não como condenação, pode ser nosso lugar de construção e amadurecimento. Existencialmente falando, a questão vai mais além. Na verdade, nem temos como escapar da solidão, se nos permitirmos amadurecer, se nos permitirmos experienciar a falta de respostas às nossas indagações e aos nossos anseios. Ficamos assim, muitas vezes de mãos vazias, na solidão da falta de respostas porque, em última análise, sobretudo para o essencial, estamos sós. O essencial tem uma fundura própria, que só se alcança numa proximidade muito especial com o próprio eu. Isso se alcança na solidão. Na bendita solidão.
Zenilce Vieira Bruno
zenilcebruno@uol.com.br
Psicóloga, sexóloga e pedagoga
Cinquenta tons de liberdade
Postado em 24-10-2012
O livro Cinquenta Tons de Cinza é a sensação do momento. No Brasil, sua venda chegou a 260 mil cópias em 40 dias. Por que tanto frenesi em torno do livro? A resposta é simples: sexo. A história da submissa estudante Anastasia Estelle, que se envolve com o bilionário bonitão e dominador Christian Grey, é recheada de sexo explícito e sadomasoquismo.
Apesar dos comentários entusiasmados de muitas leitoras, é importante lembrar que o feminino está para além da mera sensação. Trata-se de um prazer globalizante, não apenas genital, mas pele total, sensação mesclada de sonho, poesia e metáfora. Corpo de mulher é assim, meio matéria, meio espírito. Atingida só no corpo matéria, não é alcançada em sua potencialidade. Frustra-se e frustra os homens que não a percebem como tal.
A mulher liberta, que tem a sexualidade e o prazer legitimados, não receia a si própria, não teme a aventura da sensação que cada parte do corpo pode lhe proporcionar. Sua peculiaridade é ser erógena de corpo inteiro, e, se for tocada com sabedoria, revela uma gama imensa de sensações prazerosas.
A mulher goza em seu corpo e para além dele. Por isso ela evoca uma linguagem que nem todos os homens entendem; apenas aqueles que se superam em sua genitalidade, que vão além da mecânica dos corpos e do prazer que daí resulta. “Não se nasce mulher, torna-se mulher”, anuncia Simone de Beauvoir. Diria que, também não se nasce com o corpo erógeno pronto, mas em potencial. Ele se estrutura no contexto interativo de atitudes e linguagens que cercam o indivíduo, e que vão sendo internalizadas no curso de cada história.
Como psicóloga e sexóloga que sou, confesso que a discussão sobre o livro é muito mais importante do que o conteúdo em si. Pois para as mulheres restava apenas assistir aos filmes pornôs, quase sempre sugeridos por seus parceiros. Agora, com o mesmo, conseguiram ser autoras de suas próprias fantasias. No entanto, temo que depois das intumescências físicas, reste o vazio da falta de sentido desse sexo fora de si mesmo. É preciso ter clareza quanto ao que se busca e questionar a urgência de desempenho que atormenta as mulheres atuais. Essa urgência é de ordem pessoal ou midiática? É para atender um apelo do seu desejo, ou para integrar o rebanho que postula ser mais feliz fazendo sexo pelo sexo, prezando a quantidade mais que a qualidade?
Fico a meio termo. Nem com os vitorianos repressores, nem com as entusiastas do Christian Grey, quando o apresentam como tábua da salvação do prazer feminino. Prefiro acreditar ainda que somos capazes de gozar quando estamos bem conosco e a relação é regada de sentido e afeto. Prefiro a não submissão a orgias de desempenhos. Prefiro propor que o sexo aconteça no encontro entre duas pessoas que se olham, se tocam, se excitam e se amam. Prefiro não alimentar para nenhuma mulher a ilusão de que esse tipo de fantasia vai ser a salvação. Ela serve apenas para intumescer os genitais. É claro que isso ajuda, mas não é tudo. Não intumesce o desejo, o afeto, o sentimento, o sentido. E mulher gosta que sexo seja regado a tudo isso.
Zenilce Vieira Bruno
zenilcebruno@uol.com.br
Psicóloga, sexóloga e pedagoga
Um divã para dois
Postado em 01-10-2012
Enquanto Cinquenta Tons de Cinza tenta convencer leitoras de que toda mulher tem dentro de si uma perversa, o filme Um divã para dois trata das fantasias femininas, colocando Meryl Streep no papel da mulher de desejo reprimido.
Retrata um casal de terceira idade que, depois de 30 anos juntos, não parece ter mais interesses em comum. A esposa, sentindo-se sozinha, decide, a contragosto do marido, que se consultarão com um terapeuta de casais. O filme funciona, antes de tudo, como uma teleaula, com o personagem do terapeuta fazendo algumas perguntas incômodas ao casal que, por extensão, os espectadores também farão a si mesmos. Hábitos na cama e outras intimidades a dois que o tempo transforma em inércia.
Todas as necessidades se concentram na mais intensa e imediata delas: o sexo. Obviamente não se trata só disso, mas é esse elemento que se apresenta como porta-voz de todos os anseios do casal. Porém, não é fácil conseguir isso de seu parceiro conjugal de décadas. Não pela falta de vontade, mas por todo o constrangimento que esse tipo de necessidade, naquele contexto e idade específicos, gera.
Na minha opinião, o filme é um alerta aos casais. Sabemos que a solidão fica intolerável quando o outro não nos alcança, não quer, não pode nos ouvir ou não entende o que queremos dizer. Ou quando nós mesmos não sabemos fazer isso, não sabemos nos escutar, acolher-nos, considerar-nos. Somos uma cultura sem o exercício de partilha e escuta.
Não pretendo aqui fazer o papel de crítica de cinema, mas, como terapeuta de casais, não poderia deixar passar uma oportunidade tão rica de questionar os leitores sobre suas vidas amorosas. Escrevo sobre amor, sexo, relacionamentos e recebo muitas perguntas de como manter o casamento, o namoro, o ficar. O que é preciso para um relacionamento se manter vivo? O filme passa 100 minutos tentando encontrar a resposta para uma pergunta tão complexa. Afinal, nem sempre um relacionamento longo é sinônimo de um bom relacionamento. Ser feliz é uma arte. Ser feliz sexualmente é uma arte a dois, que tem origem no encontro das pessoas, não apenas dos corpos. A dimensão feminina que está tanto no homem como na mulher aprecia muito o sexual vivido com sentido e afeto.
Um divã para dois tem construções verdadeiras, em embaraços reais de personagens que aprendemos a gostar. As cenas da fantasia sexual são muito bem construídas. A forma como Meryl Streep se encolhe e se desnuda de vaidades, ao mesmo tempo em que Tommy Lee Jones está visivelmente desconfortável e quase não acredita quando a esposa diz não ter fantasias, é tocante.
Tudo é construído de uma maneira muito honesta, desnudando não só os personagens, mas muitos casais que atendemos nos consultórios ou com os quais convivemos socialmente. E os dois atores constroem isso com muita verdade, por isso, a identificação é tão forte. Torcemos para que eles possam nos provar que é possível continuar e encontrar a intimidade de uma relação plena. Para que o amor não seja apenas eterno enquanto dure, mas que possa existir mesmo um “felizes para sempre”. Nem que para isso seja mesmo necessária a ajuda de “um divã para dois”.
Eros e Psiquê
Postado em 03-09-2012
Psiquê era uma princesa grega, de tão rara beleza, que atraía os olhares de todo os habitantes que por ela passavam. Isso despertou a cólera de Vênus, que se sentiu desprestigiada pelo fato de o povo encantar-se com este novo prodígio da beleza. Ninguém mais lhe rendia louvores e seus templos andavam vazios de fiéis adoradores.
Ciumenta de seu status de deusa da beleza, Vênus manda à Terra seu filho Cupido, o deus Eros, para castigar a mortal Psiquê. Eros, porém, apaixona-se por ela e a desposa. Indignada, Vênus planeja os tipos de suplícios que irá infligir, e submete Psiquê a duras penas, provas amargas, trabalhos acima de sua capacidade. São tão grandes os tormentos que ela só consegue superá-los com a ajuda de Eros. Essa bela e atormentada figura de Psiquê é a representação de nossa alma humana.
É sobre essa “alma” humana que se debruçam os profissionais de Psicologia. Para alcançá- la, compreendê-la, faz-se necessária uma capacidade de escuta, que ultrapassa as fronteiras do simples ouvir os sons das palavras. Escutar é muito mais que isso. É tentar alcançar nessa alma, inquieta e maravilhosa, a dimensão da dor que carrega, a intensidade da alegria que experimenta, a ânsia de crescimento que lhe provoca, ou a inquietação existencial que lhe angustia.
O que podem as palavras diante de uma lágrima? Ouvir assim possibilita alcançar o não dito, ou o impossível de dizer. É uma escuta paciente mas ativa, que flua e tece, que aguarda o instante possível, que não se antecipa em soluções apressadas, que não anuncia nenhum saber, que não dá conselhos. Ela produz seu efeito na medida em que, ao flutuar, junta partes fragmentadas, e possibilita ao outro, elaborar sua dor, seu projeto, seu inferno ou paraíso emocional.
A junção de Eros e Psiquê, amor e alma, sugere que a alma humana pode superar seus tormentos através do cuidado amoroso. Sugere também aos profissionais psicólogos que a arte de escutar deve ser feita com amor, competência e cuidado. As resultantes dessa escuta para o outro podem ser a busca de encontrar-se, de ser ele mesmo, de superar o que lhe impede de acolher-se como humano que é: belo e transtornado.
Para fazer bem isso, é preciso amar o que se faz. O homem contemporâneo clama por ser ouvido, escutado, alcançado e acolhido nessa junção que o faz maravilhoso e inquieto. A alma do povo, cujos gemidos surdos se fazem notar nos sintomas da doença, da fome, da miséria e da violência, quer ser ouvida com consideração, justiça e respeito.
O mundo precisa de novos paradigmas de convivência. Precisa de ouvidos escutantes e não ensurdecidos aos apelos da vida e da dignidade humana. O planeta pede socorro para sobreviver, precisa ser ouvido em suas ordenações ecológicas. São plurais as necessidades de escuta! Urge escutar os apelos da alma de nosso tempo. Escutar é um antídoto contra o descuido. Dia 27 de agosto é dia do psicólogo. Parabéns aos colegas escutadores.
Zenilce Vieira Bruno
zenilcebruno@uol.com.br
Psicóloga, sexóloga e pedagoga
O adolescente on line e off lline
Postado em 30-07-2012
Para os jovens brasileiros, a internet tornou-se mais importante do que ouvir música, sair com os amigos e até mesmo namorar. É o que revela uma pesquisa da Cisco em 14 países. Nela, 72% dos universitários do Brasil afirmaram dar prioridade à internet e 50% admitiram que o contato pelo Facebook é mais importante do que o pessoal.
O papel crescente das redes sociais na vida dos jovens apontado pela pesquisa não surpreende quem acompanha o comportamento deste publico. Mas a forma como elas começam a se tornar mais importantes do que os contatos pessoais chega a espantar. No Brasil, três em cada cinco entrevistados disseram que a internet passou a ser tão necessária quanto água, comida e moradia. Espantosamente, 72% dos universitários do País preferem navegar na internet a namorar, ouvir música ou até sair com os amigos. Entre os que trabalham, 75% afirmaram não conseguir viver sem internet.
Uma certeza me acompanhou na leitura da pesquisa: as informações são abundantes e assim que encontrava um dado ele já ficava obsoleto. Instantaneamente, a última informação era atualizada numa velocidade que não dá para ser medida.
Crescimento, mudança, inovação, rapidez: são as palavras que mais apareceram enquanto pesquisava o consumo de mídia e tecnologia nos tempos atuais. Percebi que os conceitos de on line e off line são ultrapassados; aliás, para esses jovens, nunca existiram. Os jovens são imediatistas, hedonistas e sem percepção do tempo. Essa geração valoriza portabilidade e acesso. Se antes o jovem navegava na internet grudado na cadeira e ao computador de mesa, agora ele vai estar cada vez mais conectado por diferentes gadgets e em qualquer lugar. Mesmo considerando que sempre haverá jovens apaixonados por livros, revistas e jornais impressos, esses meios serão consumidos na forma digital pela maioria.
A possibilidade de produzir o próprio conteúdo é um dos maiores ganhos que a tecnologia e os meios de comunicação trouxeram para eles. Na verdade, eles sempre o fizeram, mas a democratização das ferramentas de produção e a distribuição os estimulou ainda mais a produzir e publicar vídeos, músicas, fotos e blogs.
Há uma grande discussão sobre a qualidade desse material como contribuição cultural, educacional e de interesse público. Mas os estudos antropológicos revelam que os desenhos nas cavernas e os hieróglifos egípcios nada mais eram do que a reprodução de cenas do cotidiano. Neste estudo, 35% dos jovens declararam o hábito de manter um blog ou fotoblog. Quantos jovens teriam a oportunidade de publicar um texto ou de gravar uma música em outros tempos?
Portanto, independente do papel que cada um tenha na vida do jovem, como pai, educador, profissional de marketing ou de mídia, os desafios serão constantes. Os pais reconhecem que a vida moderna rouba um tempo do dia a dia que deveria ser dedicado aos filhos. Estão mais ausentes, distanciaram-se da educação deles. Para suprir essa falta de atenção, seus filhos podem estar substituindo as horas de convívio pessoal por horas ao computador e outros meios de relacionamento. Os pais sabem da importância da tecnologia e dos novos meios de comunicação no desenvolvimento de seus filhos, mas têm como desafio não perder o convívio pessoal, a conversa “olho no olho” e a posição de pais.
Zenilce Vieira Bruno
zenilcebruno@uol.com.br
Psicóloga, sexóloga e pedagoga